Marcos Valério Fala a Reuters


Marcos Valério: "Eu sou o backup de Delúbio"

"Eu sou o backup do Delúbio", disse Valério à Reuters na primeira de quatro sessões de entrevista iniciadas semana passada em Belo Horizonte. Valério sustenta que a contabilidade das empresas às quais esteve ligado, naquele período, é a cópia de segurança das transferências financeiras do esquema. "A cópia verdadeira", acrescenta.

Valério tomou a decisão de revelar todos os cifrões do esquema, mas apenas um nome da cúpula - o de Delúbio - à revelia da direção petista. Ele delimitou para o ex-tesoureiro o papel de responsável pelas transações, e, para si mesmo, o de trem pagador. O empresário diz que assumiu o controle - e os riscos - dessa narrativa depois de concluir que ficaria "carregando a culpa sozinho". Pesou, ainda, o cancelamento dos contratos da SMP&B e DNA com os Correios e o Banco do Brasil.

Ameaça e papelão
Valério contou que, às vésperas de seu primeiro depoimento à CPI dos Correios, em seis de julho, recebeu um recado de emissário ligado ao governo e à direção do PT. A mensagem dizia que o Planalto não tinha motivos, até então, para romper aqueles contratos. Mas Valério entendeu o recado com o sinal contrário: a ameaça de que seriam rompidos caso revelasse os empréstimos para o caixa dois. "Por isso aceitei fazer o papelão de negar os empréstimos, sabendo que iam vazar, que não era mais possível esconder as coisas", disse o empresário.

Até o final do mês de julho, três fatos mudariam o cenário e a atitude de Marcos Valério: a CPI recebeu e divulgou a primeira leva de pagamentos a políticos do PT; novos diretores dos Correios e do BB cancelaram os contratos de publicidade com suas empresas, a comissão pediu a prisão de Valério e convocou para depor sua mulher e sócia, Renilda Santiago. "Foram vinte votos contra um para me prender", contabilizou. "Depois disso, eu não ia mais ficar protegendo deputado do PT."

Desse caminho não saio
O emissário de Brasília ainda mandou dizer que o cancelamento dos contratos teria sido decidido à revelia do comando político, do governo e do PT.

Mas a situação já era definitivamente outra. Num encontro com Delúbio, em Belo Horizonte, Valério avisou que entregaria a lista dos repasses ao procurador-geral da República. "Gosto muito de você, mas seu partido não merece meu sacrifício", ele teria dito na última conversa com Delúbio.

Na segunda sessão de entrevista, Valério traçou numa folha de papel duas linhas paralelas. Abaixo das linhas, pôs o nome de Delúbio e os cifrões do esquema, de quem e do quê já falou muito. Acima das linhas, escreveu o nome do ex-ministro José Dirceu e desenhou a estrela do PT. Sobre esses, pouco ou nada falou até hoje. "Desse caminho não saio", disse, apontando o espaço entre as linhas paralelas. "E acho que não seria justo para o país."

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